quinta-feira, 30 de março de 2017

Blasé

Destas almas que caminham rumo ao aprimoramento de si
Decerto a maioria é feliz
O tempo, que não se poupa
Posto que mesmo na inércia do corpo e da mente
Não para de correr
Preenchem com cursos
No decurso da vida, concursos
Percurso árduo, longo e incerto
Certa é somente a certeza
Da obsolescência e da incompletude
Datada e programada
A falta é o problema
E a solução
Porque a falta da falta
É a imobilidade e a inação
E na ação, em que a inação
É o mola propulsora
Pois também é a ausência
É o não
Que não pode preencher e nem satisfazer
A não ser com o regozijo
Que apraz e que preenche
E desocupa simultaneamente e retrospectivamente
Para restituir o nada e a privação
E quem muito tem também PRECISA estar privado
Até mais do que a quem muito foi tirado
Como a todos tudo falta
Nada sobra para ser compartilhado
Espaço, dinheiro e, sobretudo, tempo
São por demais escassos para que se lhos repartam
E o nosso mundo líquido é também indiferente
Insensível e cansativo
Blasé
Basicamente.


Enredo

Enredo-me em redes
Em meio a bytes
Códigos e fluxos
Intermináveis de sobreinformação
E superexposição contínua e inútil
Enredos tristes
Mesquinhos e superficiais
De um desejo
De celebrizar o cotidiano
Normalizado e normatizado
Das redes
É preciso que se lhes tomem as rédeas
Descontinuar as correntes contínuas e alterná-las
Em explosões de significado
Descomunicar e desinformar
Daquilo cuja ciência
É o vazio e a miséria
E reviver o sono e o sonho
Resignificar o significante e o significado
Tornando-os significativos.


terça-feira, 28 de março de 2017

Sem registro

Sem fotos, sem pixels, sem pictures
Nem mega, nem giga e nem tera
Nenhum registro, nenhum prontuário
Para esta pangrafia não tenho tempo
E nem memória
Perder-se no instante
Congelado na alma, nunca na lente
Que eterniza, mas mente
O sorriso é ensaiado
E o passado é instável
E mutável
Instantes, amores e amantes
Antes memoráveis
Podem, hoje, ter pouca verdade
E causar vergonha
E ensejar vendetas
E os retratos trazem de volta
A representação da pseudoalegria
Ou do real sofrimento
E de um amor que não foi
Ou já foi
Ou já se foi
Destarte, que seja abolida a inscrição
Não aquela da arte
A do registro e da transcrição
Tenhamos os momentos e os amores como produção
Reconstruídos, desterritorializados

E incapturáveis !

quarta-feira, 1 de março de 2017

Do amor e outros bichos de sete cabeças

Se preciso aprender a ser só ou aprender a só ser não sei ao certo.
Também não faço a mínima ideia se é para ser eterno enquanto dure ou se é para durar uma eternidade.
Sei lá não sei se o que é eterno é terno.
Se me fosse lícito saber algo, talvez eu soubesse que do amor que se burocratiza se adoece e que, mesmo do amor que é efêmero, se fica marcado.
E de um amor pelo qual muito se fez e nada foi retribuído, quem nada fez pode fazer um bicho de sete cabeças.
E que o amor é uma palavra só para sentimentos em demasia, para gente em demasia e falta de expressão em demasia.
E é preciso amar, mas o amor não é preciso e o coração é só um órgão. E o amor é uma convenção. Ama-se por coerção. Ama-se com o corpo e com a alma. E com a razão, com números e com equações; com contas na mão. E por amor ao futuro, ama-se no presente.
E no futuro, quando este chega, pode-se detestar o passado, em que se foi obrigado a amar. Pelo futuro.