quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Engate


Engato a primeira
Palavra
Será possível engastar alguma rima
Algum ritmo ?
Há quem batalhe por uma rima
No ritmo da cidade
A mocidade
Eu não
Que já sou meio gasto
No pomar, pitangas não colhidas
Começam a secar
Não sem antes apodrecer
Injustiça !
Foi quase um ano para que frutificassem !
Em mim, imagens de amores não cultivados
Tornam-se turvas
Injustiça !
Foi todo um pathos para que eu me tornasse vulnerável !
Ficarão no pé
Os amores, não as pitangas
Demorarão a apodrecer
Não as pitangas
Os amores

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Single lar


Sigo alone ao lar
Singing a song in LÁ
Sim, qualquer laiá
Single, single lar
Ao menos (ou menos ?)
Singular

sábado, 19 de outubro de 2019

Óbito árido


Obituários registram
Os óbitos áridos
Mortos, óbvio, pardos
Pretos, pobres sem rumo, sem lastro
E a morte tem qualquer coisa que pulsa
Que floresce ao destruir sem deixar rastros
Destruamo-nos a nós mesmos
Que é melhor que morrer de balas a esmo
É preferível o nada
A morrer de morte matada
Pode ser tolice querer dar guarida
A uma morte morrida
Pois que não nos deixam partir em paz
Por que não nos deixam partir em paz ?
Há que se morrer em doses
No trabalho, na família, nas dívidas
Na pólis, na polícia
E da polícia
No campo, no campus
Nas celas, favelas
Divididos, endividados.


Debalde


Debalde lutamos
Por essas linhas tortas
Em vão se vive
em busca de uma significação primeira
uma pedra de toque ou de roseta
que traduza, dê sentido
um pai primevo
o primeiro motor imóvel
a matriarca, o demiurgo
o artífice, o arquiteto
Há quem, debalde, se esbalde em explicações
Em estruturações, crendices, superstições
Cretinices e religiões
Em cálculos e patuás
Benzendo e benzendo-se
Debalde
Balde de água fria.





















Esquerda


A esquerda esquece-se, esquiva-se, esconde-se
E na esquina excluídos esquálidos esquentam-se
Alquebram-se
Alguns quebram pedras
E em alguns, alguém joga pedras
A esquerda que quer saber de esquetes
nas redes
Patéticas
Discursos caquéticos
Quero esquerdar-me sem me quedar
Que quem quer comer
Quereria quem quisesse qualquer coisa
Com que conseguisse
Aquinhoar qualquer quinto de café
Qualquer quinto de feijão
Que quem quinhão de riqueza não tem um quilate
Só queria existir
Mas você que come
E você que late
Que rosna contra estes carentes
Quer que...




















Poser


Pois é, pois a esquerda poser posa
Toda prosa
Pôs nunca os pés na pobreza
E pousa à direita
Pois possui não
Nenhuma disposição em posicionar-se
Positivamente pelos pobres
Parecem, pois,
Prostrados positivistas

Fim do ano


Fim do ano é o fim do mundo
Não que o mundo acabe como no Apocalipse
Now ! Sim o Apocalipse é now !
And yesterday, all my troubles
Sim são fardos, sei
Pero mañana não tem manha não
E eu vejo passas
Por todo lado, vejo passas
Por todos os pratos eu vejo passas
Por isso eu passo a vez
Porque se eu quiser comer
Não sei se como
E se eu quiser beber
Não sei se bebo
Porque o patrão paga tudo o que consome
Com o suor do meu emprego
A gente só tem que estar presente
E dar presentes
Nunca vi amigo secreto
Inimigo explícito, aos montes
Liquidação: tudo pela metade do tripo
Do preço
Fim do ano é o fim da picada
Mas não é o fim da linha
Nem o fim da estrada
Estas continuam
Duras e sinuosas














Sugar free


Sem sugar o meu axé
No sugar free
De açúcar eu gosto até
Você só suga, é fria !



Ilusionismo


Das mágicas das engrenagens opressivas
As táticas mais selvagens e lesivas
São as que opõem estes jovens
Pobres, migrantes
Mulheres, pretos
Idosos, ambulantes
Os põem em arenas
Nas quais se digladiam
Em nome de deuses
De times, de gangues
De bairros
E estes guardas
Também pobres, também pretos
Também periféricos e explorados
Guardam com a vida os portais sagrados
Do capital, o carro-chefe desta existência
Vazia
O carro forte que carrega o ouro de uns
E a fome de outros