segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

2019 !


Nas datas comemorativas, o imperativo categórico da felicidade manufaturada impera :
Esteja alegre de tal forma que a régua com que mede o teu regozijo seja a mesma com que mensura a satisfação alheia.
E alheios ao sofrimento que é a regra geral da grande maioria, uma minoria que come, que bebe e que mora, comemora. Entopem-se de esperança esperando para si mesmos que alguma força cósmica ou divina lhes traga sucesso.
O sucesso – esta coisa tão capitalista !
Aos desvalidos, resta suplicar pela sobrevivência às mesmas divindades.
E à meia-noite, a vida manter-se-á tão vazia de significado como no minuto anterior. Desejos de paz acompanhados do desejo de não perder as posses e de ter a posse de uma arma para matar os despossuídos possuirão as pessoas de bem.
Estas pessoas de bem que acreditam no Messias. Não no Messias raiz, que distribuía comida aos pobres e perdoava ladrões.
O Messias moderno, quiçá o mais medieval dos brasileiros ,promete instituir a guerra de todos contra todos ( quem disse que o estado hobbesiano era apenas uma dedução lógica, hein ? ) e abandonar o meio-termo, o diálogo, as metáforas e as meias palavras. Morte aos pobres e a todos os que deles gostam - estes comunas !
Sobre o ano novo, ah, os homens têm esta mania de contar e registrar.
E de desejar desejando somente aquilo que lhes falta.
2018 já provamos e, mesmo que tivesse sido bom ( e não foi !!!), não o quereríamos mais.
O ano que se avizinha pode não ser promissor.
Pelo menos não o temos e, assim ,o desejamos.
Parece pouco
E é mesmo, se o desejo for apenas falta.
Entretanto, e se o desejo for pulsação, produção, criação ?
Se for reinvenção, singularidade , originalidade e pulsação ?
E se...


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

2018


Sobre desejar aos outros um feliz ano novo, o que significa ?
Pode ser muito significativo para alguém que ouve. E nada significativo para quem diz, já que a insignificância é o destino de tudo o que é repetido à exaustão. Mas mesmo para quem ouve, pode não haver significado algum, se não vier de alguém cujas palavras signifiquem algo mais que só a reprodução do senso comum. Entretanto, o que seria da vida sem o senso comum ? Uma busca incessante pela significação das coisas ? Num mundo de coisas de pouca significância interna ? Aliás, sigma é a 18ª letra do alfabeto grego. Então, sigamos todos festejando, exibindo os signos de nosso ridículo sucesso. E os nossos ridículos consensos. E os nossos ridículos fogos de artifícios. E os nossos risíveis sorrisos artificiais. Nós nem estamos no ano 2018. E o que são 365 dias perto da idade da Terra ? E o tempo de uma vida, o que vale ? Para os chineses, 2018 será o ano do cão de terra. E para nós ? Será só mais um ano de mais-valia relativa, de mais-valia absoluta, de oito ou mais horas de trabalho intermitente ou não - diariamente - ou não. De fetiches, de mercadorias e de fetiche da mercadoria. De fetichizar o sujeito e a subjetividade. De copa do mundo, de panis et circences, de pânico e cerceamento. Do indivíduo, do individualismo, do endividamento e do indivíduo endividado.
Sem pânico; por incrível que pareça, a vida já foi pior. O pior é que o pior pode se repetir. Pior, como farsa ou como tragédia.

Ano Novo - 2017


O ano não começa
E nem termina
O tempo que se vive é uma dízima periódica com episódios catastróficos que se repetem
E o tempo que se passa é uma ilusão
E o tempo se conta é uma convenção
9.192.631.770 oscilações do átomo de césio-133
Contamos com dias melhores
Contamos com casas decimais
Desses males que ora vemos, contamos que terminem
Mas tempo que é ruim é tempo que não passa
Passo a pensar se já houve tempo que fosse bom
Recorro aos números, que não mentem
Africanos trazidos para o Brasil para seres escravizados: 5,5 milhões
União Soviética – 1939 /1945: 27 milhões de mortos
6,7 milhões de bombas lançadas em território vietnamita pelos Estados Unidos da América
Holocausto: 6 milhões de judeus mortos
7 mil homens presos, a maioria pretos
111 homens presos mortos, a maioria pretos
111 tiros num carro branco com 5 jovens pretos
O número é a morte da singularidade
E o relógio é a submissão da alma à racionalidade
Não deu para contar com 2016 e nem com 2017
Embora dê para contar com 16
0,1,2,3,4,5,6,7,8,9,A,B,C,D,E,F
Dá pra contar só com 8
E dá pra contar com 2
Com o zero e o 1, na verdade
E fica tudo branco ou preto
É o bem contra o mal
Assim, bem binário
Quem não gosta de contar não entra na Academia
A cada 5 minutos, uma mulher agredida
A cada 23, um jovem negro morto
Ah, a Academia é a de Platão
E o ano não termina
Só na Matemática e na Astronomia
Mas nem assim
E as 5 horas, 48 minutos e 48 segundos ?
Tem que ser pagos de 4 em 4
Em horas de tripalium
Os transtornos de hoje serão os mesmos de amanhã
Misturados à plenitude gástrica e à ressaca física e moral