sábado, 8 de abril de 2017

Hibernar

30 miligramas de R + 2 miligramas de C
Garantem 8 horas de sono
Se não tiveres insônia crônica
Dormirás muito mais
E no sono me despeço da realidade
Que é ideológica, histórica
Cruelmente produzida por homens
E que produz homens incrivelmente cruéis
Dormindo posso sonhar
Mas de que adianta sonhar
Se a matéria de que são feitos os sonhos é um pesadelo ?
É a opressão, a violência e o desespero
Disfarçados, distorcidos e dissimulados
Pelo super, que está sobre o eu, sobre mim, sobre ti
Se tiveres um sonho horrível
Levantar-te-ás apenas para dar-te conta
De que saíste do gulag idílico
Em que te encontravas preso
Para retornares ao purgatório
Que é a existência capitalista
A decapitar-nos e condenar-nos
A penas capitais
De tarefas que nos são estranhas
Nos subjugam e nos matam
A mim me interessa o sono
Façam-me hibernar
Para fugir do inverno
E deste inferno
Permitam-me despertar
Unicamente quando boas notícias houver
E enquanto durarem
Então
Que eu adormeça de novo
Com temas, ideias, assuntos
Conteúdos
Para, quiçá, sonhar
Com o que é exceção para nós

A paz  

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Mó !

Nas manhãs, mesmo ensolaradas
Despertamos para um rito mortuário
Mercado de trabalho mó tiração
Mundo acadêmico mói a gente
Os mano nas mós ideia
As mina no mó mistério
Os moleque na mó ilusão
Os macho na Idade Média
As mulher no mó recalque
As música nos mó clichê
Os menino pretinho na mó miséria
A mil por hora o atraso
No mó marasmo a vida
Os meliante na mó revolta
Metendo o cano nos próprio irmão
Os menor sem a menor perspectiva
Os militante na mó sinuca
Marx morreu na mó deprê
Morreria numa deprê bem mais mó profunda
E eu também não tô assim, mó feliz
Mas o mar é mesmo mó bom
O mais melhor lugar que tem
E quando quebra na praia, é mó bonito
Mó bonito !



segunda-feira, 3 de abril de 2017

Com sumir

Nas sombras do tempo insuficiente
Ou de seu discurso
Há muito mais o que se apurar
Do que sonha ou imagina
A nossa nem sempre tão vã filosofia
É um cada qual com o seu cada quê
E cada um qual um planeta distante
Em movimento de rotação em torno do eu mesmo
Sem luz própria, promovem um sobreinvestimento na subjetividade
Nada de sui generis, sujeitos genéricos
Saídos de impressoras 3D da psique
Em condições perfeitas para consumo
Em condições perfeitas para o consumo
E o tempo em que consomem
E que os consome
É também o que some
Mesmo quando gasto numa batalha contra o consumo
Ao consumo volta para justificar a consumação do consumo
Os trabalhadores precarizados e alienados, tudo produzem
E, conseguintemente , têm o direito de a tudo consumir
Igualmente de forma precarizada e alienante
E alienada
E consumado o consumo
O sumiço é o supra sumo
E os sumo sacerdotes do fetiche da mercadoria
E da subjetividade
Adentram o santíssimo e preparam os seus rituais
De compra e venda
E nos templos modernos em que
O deus mercado tudo vê, tudo pode e tudo sabe
Zumbis do consumismo se instalam
E somem
Dos parques, das hortas, do chamego, do carinho,
Do afago, do cuidado com o outro
E do sumiço ao que importa,
Ressurgem, aparecem
E aparecem somente para aparecer
E por aparecer
Pelo menos, é o que parece.


quinta-feira, 30 de março de 2017

Blasé

Destas almas que caminham rumo ao aprimoramento de si
Decerto a maioria é feliz
O tempo, que não se poupa
Posto que mesmo na inércia do corpo e da mente
Não para de correr
Preenchem com cursos
No decurso da vida, concursos
Percurso árduo, longo e incerto
Certa é somente a certeza
Da obsolescência e da incompletude
Datada e programada
A falta é o problema
E a solução
Porque a falta da falta
É a imobilidade e a inação
E na ação, em que a inação
É o mola propulsora
Pois também é a ausência
É o não
Que não pode preencher e nem satisfazer
A não ser com o regozijo
Que apraz e que preenche
E desocupa simultaneamente e retrospectivamente
Para restituir o nada e a privação
E quem muito tem também PRECISA estar privado
Até mais do que a quem muito foi tirado
Como a todos tudo falta
Nada sobra para ser compartilhado
Espaço, dinheiro e, sobretudo, tempo
São por demais escassos para que se lhos repartam
E o nosso mundo líquido é também indiferente
Insensível e cansativo
Blasé
Basicamente.


Enredo

Enredo-me em redes
Em meio a bytes
Códigos e fluxos
Intermináveis de sobreinformação
E superexposição contínua e inútil
Enredos tristes
Mesquinhos e superficiais
De um desejo
De celebrizar o cotidiano
Normalizado e normatizado
Das redes
É preciso que se lhes tomem as rédeas
Descontinuar as correntes contínuas e alterná-las
Em explosões de significado
Descomunicar e desinformar
Daquilo cuja ciência
É o vazio e a miséria
E reviver o sono e o sonho
Resignificar o significante e o significado
Tornando-os significativos.


terça-feira, 28 de março de 2017

Sem registro

Sem fotos, sem pixels, sem pictures
Nem mega, nem giga e nem tera
Nenhum registro, nenhum prontuário
Para esta pangrafia não tenho tempo
E nem memória
Perder-se no instante
Congelado na alma, nunca na lente
Que eterniza, mas mente
O sorriso é ensaiado
E o passado é instável
E mutável
Instantes, amores e amantes
Antes memoráveis
Podem, hoje, ter pouca verdade
E causar vergonha
E ensejar vendetas
E os retratos trazem de volta
A representação da pseudoalegria
Ou do real sofrimento
E de um amor que não foi
Ou já foi
Ou já se foi
Destarte, que seja abolida a inscrição
Não aquela da arte
A do registro e da transcrição
Tenhamos os momentos e os amores como produção
Reconstruídos, desterritorializados

E incapturáveis !

quarta-feira, 1 de março de 2017

Do amor e outros bichos de sete cabeças

Se preciso aprender a ser só ou aprender a só ser não sei ao certo.
Também não faço a mínima ideia se é para ser eterno enquanto dure ou se é para durar uma eternidade.
Sei lá não sei se o que é eterno é terno.
Se me fosse lícito saber algo, talvez eu soubesse que do amor que se burocratiza se adoece e que, mesmo do amor que é efêmero, se fica marcado.
E de um amor pelo qual muito se fez e nada foi retribuído, quem nada fez pode fazer um bicho de sete cabeças.
E que o amor é uma palavra só para sentimentos em demasia, para gente em demasia e falta de expressão em demasia.
E é preciso amar, mas o amor não é preciso e o coração é só um órgão. E o amor é uma convenção. Ama-se por coerção. Ama-se com o corpo e com a alma. E com a razão, com números e com equações; com contas na mão. E por amor ao futuro, ama-se no presente.
E no futuro, quando este chega, pode-se detestar o passado, em que se foi obrigado a amar. Pelo futuro.