quarta-feira, 11 de abril de 2018

Dissonante


Entre bemóis, sustenidos
Escalas, acordes
Escalo uma escada
De notas que sobem
E descem
Desafio, desafino
Fino trato
Alegro, cantante
Orfeu, tento civilizar
Em canções o meu coração
Que busca a dissonância
Destoa do sentido e da razão
E dá o tom menor
Que é melhor
Ainda mais SI DÓi
FAz SOL
Se Pan, encontro um amor
Se Pan, eu decoro a tua melodia
De dia, te faço uma flauta
Te faço de flauta
E pan - você é música para os meus ouvidos.



















Cartório


Reconhecer firmas e firmar acordos
Efetuar casamentos natimortos
Atestar o teu óbito
Autenticar a inautenticidade do compromisso da palavra
Fornecer a certidão
Que certifica o nascimento num mundo de injustiças e incertezas
Eu protesto contra estes que querem burocratizar a vida
E sou protestado por credores que querem me cortar o crédito
E a credibilidade
Por isso, me protestam
Pilhas e mais pilhas de papel
E o papel prova e aprova tudo
Confirma a posse da terra de ninguém
Que alguém, malandramente , grilou
E tornou sua propriedade – este roubo !
Dez cartórios para confirmar que um cidadão é de bem
Um bom cidadão capitalista consumidor
Que capitalista explorador não precisa dar satisfação.

































Meia volta inteira


De repente, imediatamente
Volvemos à merda
Com modos medievais
Sujeitos medonhos
Medíocres, medianos
Obrando por todos os lados
Com todos os meios
Com todas as mídias
Medram merda
E a exploração
A medida de todas as coisas
Mesmo
Menor em alma e espírito
O merda-mor
Seus ministros
Diminutos
Diminuem
De minuto em minuto
O que para quem pouco tem
É o mínimo



















Quem


Quem sou eu ?
O que é um eu ?
Metamorfose numa meta descrição
Que ao descrever, descrê e desinscreve
O eu-nós, o eu-ele, o eu-ela, o eu-eu
Numa polifonia; disputa por territórios
De voz e de fala
De emergência
Um eu-sou, um-eu seria, um eu-serei
Um eu-fui, eu pensei que era , um eu pensei que fosse
Descrição é morte e ressureição ininterruptas
O fígado de Prometeu que se regenera
Apenas para ser devorado
A pedra de Sísifo
Viajo de um “ penso que sou “ a um “ o que pensam de mim ? “
Devenho um eu reticências
Um ritornelo, retorno da capo
Uma ligadura de notas maiores e menores
Dissonantes
Passeio por eus desconexos
Um eu-torno-me-deveras-hermético
O amor fragmenta-me em contradições, paradoxos, subversões
E do amor de que tenho receio
E do amor pelo qual anseio
Sei que nele penso que penso
Logo que sei que penso que logro
Penso longe, sem lógica
Que o ser e o não ser
São caixas de lego sem instrução ou manual
Bricolagens em caminhos de bifurcações ao infinito









Conselho (da reprodução das relações) de classe


Reunidos no palácio da (in)justiça escolar
Docentes desprovidos de doçura destilam preconceitos
Vestidos com o manto da pseudo-sabedoria e da pseudo-erudição
Estes Hobbin Hoods às avessas
Preparam-se para vingar-se daqueles
Que felizmente se lhes opõem resistência
Aqueles aos quais se quer diminuir
Aos quais se quer uniformizar
Ora, nada disso tem relevância
Fundamental no ensino é o meio
Maneira de descontar no aluno
Lhe tirar toda a luz
Descarregar nele toda a carga de ódio
Acumulada na dupla frustração
Do anonimato e da insignificância
E estes doentes
Docentes
Se refestelam em escárnios, rancores e sadismos
Em injustiça e discriminação
A indiferença discente é insuportável
Aos humores narcísicos professorais
Importante é aplicar esta vendeta
É castigar, prolongar o sofrimento
Que é estar preso nesta masmorra moderna
Fazer com que o outro prove
Por mais um ano
Esta comida amarga
Que lhe obrigam a ingerir
Em empurrar para o precipício
Quem à beira dele se encontra


















Docente


Docente
Dor sente
Dor, sentes ?
Esmagado
Massa, gado
Massacra
Massacrado
Às vezes vil
Às vezes vê
Às vezes, viu ?
Violência
Violenta
Currículo
Curral
Grade curral-curricular
Diretrizes, parâmetros
Paramos, professores
Professamos
Profecias
Ensinamos
De cima ?
Não mais
Talvez nunca fora
Nunca mais bem-me-quer
Para sempre mal-me-quer
Mal-nos-querem
















Sei lá


Pensamento: Alhures
Coração: Nem sei
Energia: No fim
Visão: Turva
Razão: Em crise
Escola : Ainda ?
Esquizo: Sim.
Melhor ? Assim
Anomia: Interna
Ação : Interna-ação
Ascese : Exaustão
Plenitude: Gástrica
Desejo: Produção
Inação: Inanição
Mente: Aberta
Mente: Engana























Quiçá


Como é que se vive
Na angústia que não se mede
Porque não se submete
Ao tempo
Nem ao lócus
Nem ao logos
A cruz que se carrega
Sem crucifixo
Em cruz me fixo
E fico
Oxalá o sofrimento pudesse sublimar
Nas artes, no sono
Que sonho !
Sublimar na morte
De uma vez por todas !
E o medo
Da morte não
De errar
E entrar novamente no circuito
Curto-circuitado
Que eu não curto
E esta escrita é inútil
Assaz
E o que é útil não me interessa
Boa norte para quem dorme
Boa noite para quem vive
Boa noite para quem morre
Boa noite, vizinhança !




















Cara ou coroa



De um cara que ateia fogo em crianças 
De um outro que atira em crianças com arma de fogo 
De uns caras da PM que abrem fogo em bandidos
De uns caras bandidos de quem tiraram a vida com 144 tiros - não só porque eram bandidos. 
Ou só porque eram bandidos ? 
Será que eram pretos ? Será que eram pobres ? 
Em legítima defesa do monopólio legítimo da violência ilegítima. 
Pelo menos um adolescente morto por semana 
Dados de uma estatística
Mas estes jovens em quem a polícia higieno-fascista-genocida senta o dedo não têm rosto ? Não têm cara ? 
Cara ou coroa ? 
Cara, eles têm a pele preta
Coroa, têm a pela parda . 




























Evolução


Sobrevivência do mais apto ?
Fato !
E a sobrevivência do mais farto ?


Vida cínica


Corra, corra !
Corre-corre
Ao vencedor, a barbárie
O barulho
Barbas brancas
Cabelos idem
Precoces
Nascidos à força
Nascidos a forceps
Ao vencedor, as batatas
Fritas
Fast-food
Festa triste
Long live the King !
Burger





























Descolado


Descolar
Da escola
Do scholar
Desagrupar
Sem filas
Nenhuma cadeira
Nenhuma cadeia
De-sen-ca-deia
Nem carteira ?
Não
Pode escolher ?
Sim. Skolé, que é tempo livre
Livre eu canto
Em qualquer canto
Desencanto, desencano
Digo, encanto,
Não canso e danço
Por que não ?
Por que sim ?
Porque simples.





















Catraca


Catraca que trava
Qual tranca que
Outrossim trava
O outro? Sim trava
Línguas e corpos
Atraca em tramas
Em dramas
E aparta
Apartheid
Aparta -ai-de-mim
Ai de nós
Ai do carrasco
Que é persona
Quando controla
Cá, entre nós
Pessoa
Cai sem cartas na mão
Na manga
Irmão ?
Sei não
Não ?
Sim !
Na exclusão.





















Educação


Educação para quê ?
Educação Educaramba
Educanada
Métodos de educar são
Um engodo
E o ensino em si não muda
Ensina o mundo a ensimesmar-se
É um encilhamento
Este é o ensinamento
Eu só lamento
Só ensino
Se é que ensino
A incitar
E incito
A deseducar
A desensinar
A desconhecer
























Quebradeira


Quebra de página
Quebra de linha
Quebra-cabeça
Quebra-quebra
Quebra, quebra !
Quebra, Brasil !
Quebra, brasis !
Que Brasil ?
Quê, Brasil ?
Quebra, brasis !
Brasileiros, brasis leigos
Sem previdência
Sem providência
Só a Providência !



























No fluxo


Nos fluxos, nas quebradas
Jovens corpos alquebrados
Marcados
De marcas
Com marcas
E alto e nem sempre bom (Não sei, quem sabe ? Quem julga ? ) som
Produzidos
Em produção
Produzindo
Reproduzindo
Uns pisantes de marcas gringas
Estes feitos na Indonésia, no Vietnã
Por mãos infantes
Estes feitos do capitalismo !
No Vietnã, Napalm
Na palma da mão, stupidphones, slaveryphones
Frutos da escravidão moderna
Fonte da escravidão moderna
E este povo do fluxo
Fingindo felicidade
Feito gente livre

Transtorno público


1/6 de um dia de locomoção
1/6 de um dia no locus em que loucos tornar-se-ão
Um cesto de gente espremida qual laranja
Enlatada qual sardinha
1/3 de 24 horas de alienação
½ dia entre o transporte e o trabalho
Entrementes, entre transtornos
Um meio de transportar gado
Transportando gente
Em meio a este salve-se quem puder
Um sente-se quem empurrar
Um dane-se quem cair
Sofre-se quem sentir
Mata-se no atacado
Morre-se no varejo





























Intenso


Do gostar, não aprendi ainda como se modera
E do querer, que a minha alma onera
Da mania do apego
Me livrar quisera
Mas volta e meia me apego
Só que hoje eu quero sossego
Que só chego à conclusão de que, cego, sou néscio
E nado na dor que, intensa, intensifica o tempo
Que não passa
No mundo do pathos
Na prática, passou
E do amor
Se envelheceu
Mais e mais rápido
E a vida é uma só e não tem ensaio
E eu saio
Não! Não estou amando
Em off, não estou in love

Colégio privado



No colégio privado
De reflexão
Professores privados
De autonomia
Alunos privados
De emancipação
Escola particular e privada são a mesma coisa
Reino da escatologia