terça-feira, 31 de dezembro de 2019

2020

A felicidade pode ser uma impossibilidade lógica
E a graça alcançada pode não ter a menor graça
O não ter aquilo que se quer ter tem lá a sua pertinência
É que o desejo satisfeito só produz satisfação efêmera
Se é que além de vazio produza algo
Depois, figurinha repetida não completa álbum
E um álbum completo é um saco de vento
E este excesso de ter, de querer e de querer ter 
Mantém a atmosfera tóxica
Fique atento
A felicidade não é uma linha que se cruza
É qual uma corrida de obstáculos
Em que está feliz quem vence dificuldades sem as quais a alegria estaria difusa
Confusa
E o tempo que se passa, que se conta
Não é o tempo que se sente
Quem fica o ano inteiro sem pão
Ficará feliz se tiver migalhas das festas
Quem está farto de pão, sentirá que deve deixar que migalhas caiam de sua mesa
Em nome da distinção
Se é assim, melhor não distinguir 
Não houvesse pobreza, quem se farta se fartaria de não ter de quem tirar os meios 
A lógica liberal é a lógica da loja 
Com prazeres com número de série e Q.R code
Lógico que a lógica não tem nada de universal
Logo, pode existir algum deleite incompreensível a mentes metódicas
Num quilombo, numa aldeia
E lá ninguém quer vencer na vida
Melhor assim
Viver sem loja
E sem esta lógica 





sábado, 7 de dezembro de 2019

Démodé


Em tempos em que o amor se tornou démodé
A moda é o “eu te odeio”
Odeia-se a quem fuma
E a quem não
Odeia-se a quem come carne
Que sai a um bom quantum de trabalho abstrato acumulado
E odeia-se aos pobres
Que querem comer carne ao custo de uma divisão mais justa da riqueza
Riqueza oriunda do trabalho
Odeia-se a quem ama
Se este amor for homo, bi, poli, pan, trans
Se o amor tiver cor
Odeia-se a quem beija, a quem sente
A quem transa
Odeia-se ao faminto que pede
Pois há quem prefira um pet a alguém que pede
E, claro, tem quem odeie um pet, que nem pediria nada
Não fossem os humanos
A economia tem que ver com distribuir recursos escassos
A economia doméstica do afeto
Bem que podia
Botar mais amor em circulação
Teríamos do gozo uma inflação
Faltaria gente a quem amar e teríamos
Que emprestar os nossos amores a outros amantes
Tudo seria de todos
Todos seriam de todas e de todos. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Engate


Engato a primeira
Palavra
Será possível engastar alguma rima
Algum ritmo ?
Há quem batalhe por uma rima
No ritmo da cidade
A mocidade
Eu não
Que já sou meio gasto
No pomar, pitangas não colhidas
Começam a secar
Não sem antes apodrecer
Injustiça !
Foi quase um ano para que frutificassem !
Em mim, imagens de amores não cultivados
Tornam-se turvas
Injustiça !
Foi todo um pathos para que eu me tornasse vulnerável !
Ficarão no pé
Os amores, não as pitangas
Demorarão a apodrecer
Não as pitangas
Os amores

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Single lar


Sigo alone ao lar
Singing a song in LÁ
Sim, qualquer laiá
Single, single lar
Ao menos (ou menos ?)
Singular

sábado, 19 de outubro de 2019

Óbito árido


Obituários registram
Os óbitos áridos
Mortos, óbvio, pardos
Pretos, pobres sem rumo, sem lastro
E a morte tem qualquer coisa que pulsa
Que floresce ao destruir sem deixar rastros
Destruamo-nos a nós mesmos
Que é melhor que morrer de balas a esmo
É preferível o nada
A morrer de morte matada
Pode ser tolice querer dar guarida
A uma morte morrida
Pois que não nos deixam partir em paz
Por que não nos deixam partir em paz ?
Há que se morrer em doses
No trabalho, na família, nas dívidas
Na pólis, na polícia
E da polícia
No campo, no campus
Nas celas, favelas
Divididos, endividados.


Debalde


Debalde lutamos
Por essas linhas tortas
Em vão se vive
em busca de uma significação primeira
uma pedra de toque ou de roseta
que traduza, dê sentido
um pai primevo
o primeiro motor imóvel
a matriarca, o demiurgo
o artífice, o arquiteto
Há quem, debalde, se esbalde em explicações
Em estruturações, crendices, superstições
Cretinices e religiões
Em cálculos e patuás
Benzendo e benzendo-se
Debalde
Balde de água fria.





















Esquerda


A esquerda esquece-se, esquiva-se, esconde-se
E na esquina excluídos esquálidos esquentam-se
Alquebram-se
Alguns quebram pedras
E em alguns, alguém joga pedras
A esquerda que quer saber de esquetes
nas redes
Patéticas
Discursos caquéticos
Quero esquerdar-me sem me quedar
Que quem quer comer
Quereria quem quisesse qualquer coisa
Com que conseguisse
Aquinhoar qualquer quinto de café
Qualquer quinto de feijão
Que quem quinhão de riqueza não tem um quilate
Só queria existir
Mas você que come
E você que late
Que rosna contra estes carentes
Quer que...




















Poser


Pois é, pois a esquerda poser posa
Toda prosa
Pôs nunca os pés na pobreza
E pousa à direita
Pois possui não
Nenhuma disposição em posicionar-se
Positivamente pelos pobres
Parecem, pois,
Prostrados positivistas

Fim do ano


Fim do ano é o fim do mundo
Não que o mundo acabe como no Apocalipse
Now ! Sim o Apocalipse é now !
And yesterday, all my troubles
Sim são fardos, sei
Pero mañana não tem manha não
E eu vejo passas
Por todo lado, vejo passas
Por todos os pratos eu vejo passas
Por isso eu passo a vez
Porque se eu quiser comer
Não sei se como
E se eu quiser beber
Não sei se bebo
Porque o patrão paga tudo o que consome
Com o suor do meu emprego
A gente só tem que estar presente
E dar presentes
Nunca vi amigo secreto
Inimigo explícito, aos montes
Liquidação: tudo pela metade do tripo
Do preço
Fim do ano é o fim da picada
Mas não é o fim da linha
Nem o fim da estrada
Estas continuam
Duras e sinuosas














Sugar free


Sem sugar o meu axé
No sugar free
De açúcar eu gosto até
Você só suga, é fria !



Ilusionismo


Das mágicas das engrenagens opressivas
As táticas mais selvagens e lesivas
São as que opõem estes jovens
Pobres, migrantes
Mulheres, pretos
Idosos, ambulantes
Os põem em arenas
Nas quais se digladiam
Em nome de deuses
De times, de gangues
De bairros
E estes guardas
Também pobres, também pretos
Também periféricos e explorados
Guardam com a vida os portais sagrados
Do capital, o carro-chefe desta existência
Vazia
O carro forte que carrega o ouro de uns
E a fome de outros






















quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Dia dos pais

Paternidade, uma parte tardiamente parida da humanidade
Pater familias, patrão, pátria
Padres, pais, alguns são uns párias
Não parem
Não assumem
Somem
Partem famílias
E o patriarcado é um patriciado 
De privilégios que já podiam ter partido
Mas se for para ser pai, que seja de paz
Se será qual o pai primevo, primordial
Convoque Édipo a cumprir o seu destino
O parricídio. 

Questão de prova

Avaliar é questão de prova
A prova pretende ser a prova de que o aprovado 
provou o que sabe
Provou o que sabe do que a prova perguntou
Pois, do que não foi perguntado, ninguém que prova e aprova os outros
Provou que alguém soubesse algo
Resta provar se o que não foi perguntado 
Porventura não seria o mais importante
O que provaria que a prova; para muitos, provação
que provoca reprovação, talvez não resistisse 
a uma contraprova
Provavelmente não !

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Barragens




Para o sofrimento
Há sempre muito espaço
Nesta e em outras existências
Se estas existirem
Quando espaço não há
A dor extravasa e pede passagem
E as barragens...
As barragens não ajudam a segurar a barra
Não barram a lama, o barro
Os detritos tóxicos
Resultado das escavações do corpo, da alma, da mente
Barragens para conter dissabores
Desabam aos sabores da maldade humana
E também ao acaso que, por acaso,
Explica mais do que muito explicador
E do que muita explicação
Barrados ou não
Sofrer e fazer sofrer
Podem ser aspectos da vida inevitáveis
Só não podem ser, não devem ser
Gratuitos, propositais
Das grandes coisas é difícil extrair satisfação
Ninguém muda muita coisa em si mesmo
Muito menos muda o mundo
Que é todo um mundo de problemas
Insolúveis e insuportáveis
Mas e se o combinado for uma alegriazinha ?
Uma felicidade despretensiosa e pequenininha ?
Pode ser que dê pé

Alexandre Marques de Freitas
elucubracoesdesuteis.blogspot.com