A felicidade pode ser uma impossibilidade lógica
E a graça alcançada pode não ter a menor graça
O não ter aquilo que se quer ter tem lá a sua pertinência
É que o desejo satisfeito só produz satisfação efêmera
Se é que além de vazio produza algo
Depois, figurinha repetida não completa álbum
E um álbum completo é um saco de vento
E este excesso de ter, de querer e de querer ter
Mantém a atmosfera tóxica
Fique atento
A felicidade não é uma linha que se cruza
É qual uma corrida de obstáculos
Em que está feliz quem vence dificuldades sem as quais a alegria estaria difusa
Confusa
E o tempo que se passa, que se conta
Não é o tempo que se sente
Quem fica o ano inteiro sem pão
Ficará feliz se tiver migalhas das festas
Quem está farto de pão, sentirá que deve deixar que migalhas caiam de sua mesa
Em nome da distinção
Se é assim, melhor não distinguir
Não houvesse pobreza, quem se farta se fartaria de não ter de quem tirar os meios
A lógica liberal é a lógica da loja
Com prazeres com número de série e Q.R code
Lógico que a lógica não tem nada de universal
Logo, pode existir algum deleite incompreensível a mentes metódicas
Num quilombo, numa aldeia
E lá ninguém quer vencer na vida
Melhor assim
Viver sem loja
E sem esta lógica
terça-feira, 31 de dezembro de 2019
sábado, 7 de dezembro de 2019
Démodé
Em
tempos em que o amor se tornou démodé
A
moda é o “eu te odeio”
Odeia-se
a quem fuma
E
a quem não
Odeia-se
a quem come carne
Que
sai a um bom quantum de trabalho abstrato acumulado
E
odeia-se aos pobres
Que
querem comer carne ao custo de uma divisão mais justa da riqueza
Riqueza
oriunda do trabalho
Odeia-se
a quem ama
Se
este amor for homo, bi, poli, pan, trans
Se
o amor tiver cor
Odeia-se
a quem beija, a quem sente
A
quem transa
Odeia-se
ao faminto que pede
Pois
há quem prefira um pet a alguém que pede
E,
claro, tem quem odeie um pet, que nem pediria nada
Não fossem os humanos
A
economia tem que ver com distribuir recursos escassos
A
economia doméstica do afeto
Bem
que podia
Botar
mais amor em circulação
Teríamos
do gozo uma inflação
Faltaria
gente a quem amar e teríamos
Que
emprestar os nossos amores a outros amantes
Tudo
seria de todos
Todos
seriam de todas e de todos.
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
Engate
Engato
a primeira
Palavra
Será
possível engastar alguma rima
Algum
ritmo ?
Há
quem batalhe por uma rima
No
ritmo da cidade
A
mocidade
Eu
não
Que
já sou meio gasto
No
pomar, pitangas não colhidas
Começam
a secar
Não
sem antes apodrecer
Injustiça
!
Foi
quase um ano para que frutificassem !
Em
mim, imagens de amores não cultivados
Tornam-se
turvas
Injustiça
!
Foi
todo um pathos para que eu me tornasse vulnerável !
Ficarão
no pé
Os
amores, não as pitangas
Demorarão
a apodrecer
Não
as pitangas
Os
amores
terça-feira, 22 de outubro de 2019
Single lar
Sigo
alone ao lar
Singing
a song in LÁ
Sim,
qualquer laiá
Single,
single lar
Ao
menos (ou menos ?)
Singular
sábado, 19 de outubro de 2019
Óbito árido
Obituários
registram
Os
óbitos áridos
Mortos,
óbvio, pardos
Pretos,
pobres sem rumo, sem lastro
E
a morte tem qualquer coisa que pulsa
Que
floresce ao destruir sem deixar rastros
Destruamo-nos
a nós mesmos
Que
é melhor que morrer de balas a esmo
É
preferível o nada
A
morrer de morte matada
Pode
ser tolice querer dar guarida
A
uma morte morrida
Pois
que não nos deixam partir em paz
Por
que não nos deixam partir em paz ?
Há
que se morrer em doses
No
trabalho, na família, nas dívidas
Na
pólis, na polícia
E
da polícia
No
campo, no campus
Nas
celas, favelas
Divididos,
endividados.
Debalde
Debalde
lutamos
Por
essas linhas tortas
Em
vão se vive
em
busca de uma significação primeira
uma
pedra de toque ou de roseta
que
traduza, dê sentido
um
pai primevo
o
primeiro motor imóvel
a
matriarca, o demiurgo
o
artífice, o arquiteto
Há
quem, debalde, se esbalde em explicações
Em
estruturações, crendices, superstições
Cretinices
e religiões
Em
cálculos e patuás
Benzendo
e benzendo-se
Debalde
Balde
de água fria.
Esquerda
A
esquerda esquece-se, esquiva-se, esconde-se
E
na esquina excluídos esquálidos esquentam-se
Alquebram-se
Alguns
quebram pedras
E
em alguns, alguém joga pedras
A
esquerda que quer saber de esquetes
nas
redes
Patéticas
Discursos
caquéticos
Quero
esquerdar-me sem me quedar
Que
quem quer comer
Quereria
quem quisesse qualquer coisa
Com
que conseguisse
Aquinhoar
qualquer quinto de café
Qualquer
quinto de feijão
Que
quem quinhão de riqueza não tem um quilate
Só
queria existir
Mas
você que come
E
você que late
Que
rosna contra estes carentes
Quer
que...
Poser
Pois
é, pois a esquerda poser posa
Toda
prosa
Pôs
nunca os pés na pobreza
E
pousa à direita
Pois
possui não
Nenhuma
disposição em posicionar-se
Positivamente
pelos pobres
Parecem,
pois,
Prostrados
positivistas
Fim do ano
Fim
do ano é o fim do mundo
Não
que o mundo acabe como no Apocalipse
Now
! Sim o Apocalipse é now !
And
yesterday, all my troubles
Sim
são fardos, sei
Pero
mañana não tem manha não
E
eu vejo passas
Por
todo lado, vejo passas
Por
todos os pratos eu vejo passas
Por
isso eu passo a vez
Porque
se eu quiser comer
Não
sei se como
E
se eu quiser beber
Não
sei se bebo
Porque
o patrão paga tudo o que consome
Com
o suor do meu emprego
A
gente só tem que estar presente
E
dar presentes
Nunca
vi amigo secreto
Inimigo
explícito, aos montes
Liquidação:
tudo pela metade do tripo
Do
preço
Fim
do ano é o fim da picada
Mas
não é o fim da linha
Nem
o fim da estrada
Estas
continuam
Duras
e sinuosas
Ilusionismo
Das
mágicas das engrenagens opressivas
As
táticas mais selvagens e lesivas
São
as que opõem estes jovens
Pobres,
migrantes
Mulheres,
pretos
Idosos,
ambulantes
Os
põem em arenas
Nas
quais se digladiam
Em
nome de deuses
De
times, de gangues
De
bairros
E
estes guardas
Também
pobres, também pretos
Também
periféricos e explorados
Guardam
com a vida os portais sagrados
Do
capital, o carro-chefe desta existência
Vazia
O
carro forte que carrega o ouro de uns
E
a fome de outros
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
Dia dos pais
Paternidade, uma parte tardiamente parida da humanidade
Pater familias, patrão, pátria
Padres, pais, alguns são uns párias
Não parem
Não assumem
Somem
Partem famílias
E o patriarcado é um patriciado
De privilégios que já podiam ter partido
Mas se for para ser pai, que seja de paz
Se será qual o pai primevo, primordial
Convoque Édipo a cumprir o seu destino
O parricídio.
Pater familias, patrão, pátria
Padres, pais, alguns são uns párias
Não parem
Não assumem
Somem
Partem famílias
E o patriarcado é um patriciado
De privilégios que já podiam ter partido
Mas se for para ser pai, que seja de paz
Se será qual o pai primevo, primordial
Convoque Édipo a cumprir o seu destino
O parricídio.
Questão de prova
Avaliar é questão de prova
A prova pretende ser a prova de que o aprovado
provou o que sabe
Provou o que sabe do que a prova perguntou
Pois, do que não foi perguntado, ninguém que prova e aprova os outros
Provou que alguém soubesse algo
Resta provar se o que não foi perguntado
Porventura não seria o mais importante
O que provaria que a prova; para muitos, provação
que provoca reprovação, talvez não resistisse
a uma contraprova
Provavelmente não !
A prova pretende ser a prova de que o aprovado
provou o que sabe
Provou o que sabe do que a prova perguntou
Pois, do que não foi perguntado, ninguém que prova e aprova os outros
Provou que alguém soubesse algo
Resta provar se o que não foi perguntado
Porventura não seria o mais importante
O que provaria que a prova; para muitos, provação
que provoca reprovação, talvez não resistisse
a uma contraprova
Provavelmente não !
segunda-feira, 8 de abril de 2019
Barragens
Para o sofrimento
Há sempre muito espaço
Nesta e em outras
existências
Se estas existirem
Quando espaço não há
A dor extravasa e pede
passagem
E as barragens...
As barragens não
ajudam a segurar a barra
Não barram a lama, o
barro
Os detritos tóxicos
Resultado das
escavações do corpo, da alma, da mente
Barragens para conter
dissabores
Desabam aos sabores da
maldade humana
E também ao acaso que,
por acaso,
Explica mais do que
muito explicador
E do que muita
explicação
Barrados ou não
Sofrer e fazer sofrer
Podem ser aspectos da
vida inevitáveis
Só não podem ser, não
devem ser
Gratuitos, propositais
Das grandes coisas é
difícil extrair satisfação
Ninguém muda muita
coisa em si mesmo
Muito menos muda o
mundo
Que é todo um mundo de
problemas
Insolúveis e
insuportáveis
Mas e se o combinado
for uma alegriazinha ?
Uma felicidade
despretensiosa e pequenininha ?
Pode ser que dê pé
Alexandre Marques de
Freitas
elucubracoesdesuteis.blogspot.com
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