Em
tempos em que o amor se tornou démodé
A
moda é o “eu te odeio”
Odeia-se
a quem fuma
E
a quem não
Odeia-se
a quem come carne
Que
sai a um bom quantum de trabalho abstrato acumulado
E
odeia-se aos pobres
Que
querem comer carne ao custo de uma divisão mais justa da riqueza
Riqueza
oriunda do trabalho
Odeia-se
a quem ama
Se
este amor for homo, bi, poli, pan, trans
Se
o amor tiver cor
Odeia-se
a quem beija, a quem sente
A
quem transa
Odeia-se
ao faminto que pede
Pois
há quem prefira um pet a alguém que pede
E,
claro, tem quem odeie um pet, que nem pediria nada
Não fossem os humanos
A
economia tem que ver com distribuir recursos escassos
A
economia doméstica do afeto
Bem
que podia
Botar
mais amor em circulação
Teríamos
do gozo uma inflação
Faltaria
gente a quem amar e teríamos
Que
emprestar os nossos amores a outros amantes
Tudo
seria de todos
Todos
seriam de todas e de todos.
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