sábado, 7 de dezembro de 2019

Démodé


Em tempos em que o amor se tornou démodé
A moda é o “eu te odeio”
Odeia-se a quem fuma
E a quem não
Odeia-se a quem come carne
Que sai a um bom quantum de trabalho abstrato acumulado
E odeia-se aos pobres
Que querem comer carne ao custo de uma divisão mais justa da riqueza
Riqueza oriunda do trabalho
Odeia-se a quem ama
Se este amor for homo, bi, poli, pan, trans
Se o amor tiver cor
Odeia-se a quem beija, a quem sente
A quem transa
Odeia-se ao faminto que pede
Pois há quem prefira um pet a alguém que pede
E, claro, tem quem odeie um pet, que nem pediria nada
Não fossem os humanos
A economia tem que ver com distribuir recursos escassos
A economia doméstica do afeto
Bem que podia
Botar mais amor em circulação
Teríamos do gozo uma inflação
Faltaria gente a quem amar e teríamos
Que emprestar os nossos amores a outros amantes
Tudo seria de todos
Todos seriam de todas e de todos. 

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