sábado, 31 de dezembro de 2016

Olá, Ano Velho !

O ano não começa
E nem termina
O tempo que se vive é uma dízima periódica com episódios catastróficos que se repetem
E o tempo que se passa é uma ilusão
E o tempo se conta é uma convenção
9.192.631.770 oscilações do átomo de césio-133
Contamos com dias melhores
Contamos com casas decimais
Desses males que ora vemos, contamos que terminem
Mas tempo que é ruim é tempo que não passa
Passo a pensar se já houve tempo que fosse bom
Recorro aos números, que não mentem
Africanos trazidos para o Brasil para seres escravizados: 5,5 milhões
União Soviética – 1939 /1945: 27 milhões de mortos
6,7 milhões de bombas lançadas em território vietnamita pelos Estados Unidos da América
Holocausto: 6 milhões de judeus mortos
7 mil homens presos, a maioria pretos
111 homens presos mortos, a maioria pretos
111 tiros num carro branco com 5 jovens pretos
O número é a morte da singularidade
E o relógio é a submissão da alma à racionalidade
Não deu para contar com 2016
Embora dê para contar com 16
0,1,2,3,4,5,6,7,8,9,A,B,C,D,E,F
Dá pra contar só com 8
E dá pra contar com 2
Com o zero e o 1, na verdade
E fica tudo branco ou preto
É o bem contra o mal
Assim, bem binário
Quem não gosta de contar não entra na Academia
A cada 5 minutos, uma mulher agredida
A cada 23, um jovem negro morto
Ah, a Academia é a de Platão
E o ano não termina
Só na Matemática e na Astronomia
Mas nem assim
E as 5 horas, 48 minutos e 48 segundos ?
Tem que ser pagos de 4 em 4
Em horas de tripalium
Os transtornos de hoje serão os mesmos de amanhã
Misturados à plenitude gástrica e à ressaca física e moral