O ano não começa
E nem termina
O tempo que se vive é
uma dízima periódica com episódios catastróficos que se repetem
E o tempo que se passa
é uma ilusão
E o tempo se conta é
uma convenção
9.192.631.770
oscilações do átomo de césio-133
Contamos com dias
melhores
Contamos com casas
decimais
Desses males que ora
vemos, contamos que terminem
Mas tempo que é ruim é
tempo que não passa
Passo a pensar se já
houve tempo que fosse bom
Recorro aos números,
que não mentem
Africanos trazidos para
o Brasil para seres escravizados: 5,5 milhões
União Soviética –
1939 /1945: 27 milhões de mortos
6,7 milhões de bombas
lançadas em território vietnamita pelos Estados Unidos da América
Holocausto: 6 milhões
de judeus mortos
7 mil homens presos, a
maioria pretos
111 homens presos
mortos, a maioria pretos
111 tiros num carro
branco com 5 jovens pretos
O número é a morte da
singularidade
E o relógio é a
submissão da alma à racionalidade
Não deu para contar
com 2016
Embora dê para contar
com 16
0,1,2,3,4,5,6,7,8,9,A,B,C,D,E,F
Dá pra contar só com
8
E dá pra contar com 2
Com o zero e o 1, na
verdade
E fica tudo branco ou
preto
É o bem contra o mal
Assim, bem binário
Quem não gosta de
contar não entra na Academia
A cada 5 minutos, uma
mulher agredida
A cada 23, um jovem
negro morto
Ah, a Academia é a de
Platão
E o ano não termina
Só na Matemática e na
Astronomia
Mas nem assim
E as 5 horas, 48
minutos e 48 segundos ?
Tem que ser pagos de 4
em 4
Em horas de tripalium
Os transtornos de hoje
serão os mesmos de amanhã
Misturados à plenitude
gástrica e à ressaca física e moral
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