sábado, 9 de julho de 2016

Aílton e Eva

Aílton era um homem casado. Ele tinha uma amante. Nos relacionamentos extraconjugais não existe muito acordo no início. Você não está fazendo nada, ela também. Você é fogo, ela é paixão. Você quer pegá-la no colo, deita-la no solo e fazê-la mulher. Ela, quando tão louca, te beija na boca, te ama no chão. Com que cara você vai sair é um problema secundário.
Um dia, após vários encontros, decidiram que tinham que fazer uns combinados. Como já combinavam bastante, o acordo foi simples: será eterno enquanto durar, a nossa preocupação é fruir. Bom sexo, bons vinhos, bons passeios, bons filmes. Viviam num Jardim do Éden erótico. Mas este cinismo amoroso é difícil de sustentar e um dia a cobra finalmente soprou algumas palavras no ouvido de Eva. Disse-lhe que se Aílton realmente a amasse, largaria a esposa para ficar com ela. E ela dormiu no barulho da serpente.
- Eu quero saber quando é que você vai se separar dela ?
- Pera aí, acho que o acordo mudou e eu não fui avisado.
- Qual o propósito deste nosso relacionamento ?
- Compartilhar bons momentos juntos.
- Não é suficiente. Por que ela pode ter tudo e eu nada ?
- O que ela tem a mais que você são os filhos para criar, a louça e a roupa para lavar. Eu ajudo em casa, mas você sabe, as mulheres acreditam que têm mais responsabilidade no tocante às tarefas domésticas, assim como os homens creem que precisam desempenhar o papel de provedores.
- Eu cansei de ser a outra.
- Compreendo. Mas você também é casada e eu não me sinto o “outro”.
- Acho que precisamos dar um tempo.
- Se você acha melhor...
- Tá vendo como você é ? ? ?
- Como eu sou ?
- Sem compromisso. Eu falei em darmos um tempo e você logo aceitou.
- Puxa, é que eu achei que você estivesse falando sério. Não imaginei que fosse uma pegadinha.
- Você não tem nada a me oferecer...
- Tenho amor, sinceridade, honestidade, lealdade, companheirismo. Não é suficiente ?
- Esta conversa não vai levar a lugar algum. Acho que terminamos por aqui.
- Como você preferir.
Dois meses depois, Eva liga para Aílton:
- Olha aqui, eu estou disposta a reatar com você, mas preciso saber o que você está disposto a me oferecer.
- Rola !
- Como assim ?
- Eu ofereci carinho, sinceridade, honestidade, enfim, você disse que não era o bastante. Agora só posso oferecer rola. Você quer ?
- Vai pro inferno.

E depois desta conversa, Aílton e Eva ainda saíram por um bom tempo. Só pela rola mesmo.  

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