Um
consenso havia se formado. De todas as formas de governo, aquela que
mais se adequava aos novos tempos era, indubitavelmente, a
plutocracia. A concentração de renda, poder e prestígio atingira
níveis inimagináveis, viabilizando um ciclo de prosperidade sem
precedentes para a burguesia, que agora se ofendia com esta
designação que, direta ou indiretamente, remetia a algum tipo de
trabalho, e achou por bem retomar os antigos títulos de nobreza : o
novo mundo era comandado por barões, duques, marqueses…
A
mecanização, a automatização e a inteligência artificial
avançaram de tal modo a tornar prescindível a mão de obra de
bilhões, que agora vagavam pelas ruas sem ter a quem oferecer o seu
trabalho. Qual o Lázaro da parábola, comiam os restos, migalhas e
ossos que caíam literal e metaforicamente da mesa dos ricos. Grupos
paramilitares se encarregavam do extermínio dos “ indesejáveis “
e equipes médicas promoviam a esterilização dos pobres, que
insistiam em existir, resistir e atrapalhar a paisagem, ocupando
pontos turísticos importantes.
O
ano 40 do calendário argentário coincidiu com a emergência das
três grandes formas de sofrimento humano, que caíram sobre o
planeta de uma forma implacável. Debaixo do forte stress decorrente
da exploração desmesurada e das mudanças climáticas, a Terra,
também concluindo o seu tempo de existência, se tornou o palco de
inúmeras catástrofes naturais. Um vírus altamente contagioso e de
uma letalidade até então desconhecida se espalhou rapidamente pelo
mundo globalizado. Na tentativa de conter a pandemia, os países mais
desenvolvidos lançaram seu arsenal bélico nuclear na direção de
comunidades onde se imaginava que a doença havia surgido – foi um
ato de vingança.
Diante
do fim iminente, o qual não temiam, um grupo de músicos, filósofos,
sociólogos, cientistas, atores, atrizes, psiquiatrizados, artistas
de rua e outros outsiders decidiu passar os últimos meses de vida na
produção e fruição da arte, fazendo amor com aquelas pessoas com
quem sempre quiseram, mas foram impedidos pela moral, pelo superego,
pela consciência coletiva, pelas relações de classe, pelo
inconsciente coletivo, etc.
Ao
som da TV, que exibia um filme do Hitchcock , ele acordou. Era um
sonho – ou pesadelo; depende do ponto de vista. Ficou confuso,
afinal, existiam tantas similaridades entre o sonho e aquilo a que se
chama realidade. Exceto a parte de fazer amor. Isto ninguém está
fazendo mesmo.