sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

2022

 

2022


É uma ruptura

Uma linha de continuidade

Rito de passagem

Convenção

Parece bem relativo

Um segundo

Dura uma eternidade

Um ano é um nada

Na história da humanidade

Como ser o nada ?

Pode o nada ser algo ?

É uma folha em branco

Só que o papel existe em ato

E potência

Qual a palavra não dita

Não escrita

Se existe a palavra, existe a coisa ?

A tristeza existe

Com vários nomes, letras e siglas

Delta, ômicron, H3N2, H1N1

Fome, enchente, inundação

O sentimento oceânico

De fazer brotar felicidade do caos

Não me habita

Existe o belo dos seres

E o belo em si

Há quem não seja tão simplório

Ao ponto de ver só o belo das coisas

E nem tão racional

Para ver o belo ideal

Resta, então

Vagar por territórios gris

Que o ano novo

Seja ...novo...




sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Nau dos insanos

 

Na Nau dos loucos
Há muito mais gente sã
Do que sonham os nossos
Vãos saberes Psi

Um pouco esquizo lá ?
Sim, e daí...
Muito esquisito a cá
Muita norma, gente morna

Obcecada pelo metal vil
Nem me TOC
Eu não deliro
Eu, num delírio

Terapia em dia ?
Só para estar apto
Produzir mais-valia
E ser encaixotado
Esquadrinhado
Serializado
Q.R.codizado

Tudo normal
Não !
Talvez eu prefira
A nau


@obitoarido

domingo, 7 de novembro de 2021

Cancela


Quereria eu dissertar
Sobre quem se foi
Ou quem se vai...
Reticente a me interrogar
Sem interrogação
Ponto !
Pois que é retórica
A indagação
O futuro é do pretérito
Quanto retrocesso, quanta involução !
Não é sobre quem se foi desta vida
Não !
Porventura estes podem estar
Salvos e sãos
Por ventura
Se não se alegram mais
Também estão livres das desventuras
Contudo, a quem vive nesta era
O costume é cancelar
Eu cansei, ele cancela, ela cancela
De quem de mim tem ranço, eu canso
Abro a cela, a cancela
Pode ir-se
Com ou sem chancela

@obitoarido
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quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Criação


Sem críticos
E sem parâmetros de comparação
Javé concluiu
Que tudo o que havia criado era bom
Inclusive o mal

@obitoarido
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domingo, 31 de outubro de 2021

Ostentação

Na sociedade da ostentação

Há quem ostente poder e riquezas

Outr'ostentam sobreviver apenas

A duras penas

@obitoarido
www.obitoarido.blogspot.com

sábado, 23 de outubro de 2021

Curtume


Para as manadas digitais
As redes que pescam gente
Instam o gado à grama
Instagrama
Um chamado à pseudofama
Um intenso curtimento
Travestido de curtição
Este curtume anímico
Não me anima não
Postes aos montes
Postando postagens
Pastando em pastagens
De ração digital
Vencida
Vencidos pelo capital

@obitoarido
obitoarido.blogspot.com

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Solo

 Sol - posto

Solo fértil para a solidão 

Só, solapado 

Um solo, violão

Solfejo 

Solo, só lapada 

Só lapido

Só, lapido

Só, lavro o léxico

Solipso

Um solilóquio 

sábado, 7 de agosto de 2021

Desfecho

 

Um consenso havia se formado. De todas as formas de governo, aquela que mais se adequava aos novos tempos era, indubitavelmente, a plutocracia. A concentração de renda, poder e prestígio atingira níveis inimagináveis, viabilizando um ciclo de prosperidade sem precedentes para a burguesia, que agora se ofendia com esta designação que, direta ou indiretamente, remetia a algum tipo de trabalho, e achou por bem retomar os antigos títulos de nobreza : o novo mundo era comandado por barões, duques, marqueses…

A mecanização, a automatização e a inteligência artificial avançaram de tal modo a tornar prescindível a mão de obra de bilhões, que agora vagavam pelas ruas sem ter a quem oferecer o seu trabalho. Qual o Lázaro da parábola, comiam os restos, migalhas e ossos que caíam literal e metaforicamente da mesa dos ricos. Grupos paramilitares se encarregavam do extermínio dos “ indesejáveis “ e equipes médicas promoviam a esterilização dos pobres, que insistiam em existir, resistir e atrapalhar a paisagem, ocupando pontos turísticos importantes.

O ano 40 do calendário argentário coincidiu com a emergência das três grandes formas de sofrimento humano, que caíram sobre o planeta de uma forma implacável. Debaixo do forte stress decorrente da exploração desmesurada e das mudanças climáticas, a Terra, também concluindo o seu tempo de existência, se tornou o palco de inúmeras catástrofes naturais. Um vírus altamente contagioso e de uma letalidade até então desconhecida se espalhou rapidamente pelo mundo globalizado. Na tentativa de conter a pandemia, os países mais desenvolvidos lançaram seu arsenal bélico nuclear na direção de comunidades onde se imaginava que a doença havia surgido – foi um ato de vingança.

Diante do fim iminente, o qual não temiam, um grupo de músicos, filósofos, sociólogos, cientistas, atores, atrizes, psiquiatrizados, artistas de rua e outros outsiders decidiu passar os últimos meses de vida na produção e fruição da arte, fazendo amor com aquelas pessoas com quem sempre quiseram, mas foram impedidos pela moral, pelo superego, pela consciência coletiva, pelas relações de classe, pelo inconsciente coletivo, etc.

Ao som da TV, que exibia um filme do Hitchcock , ele acordou. Era um sonho – ou pesadelo; depende do ponto de vista. Ficou confuso, afinal, existiam tantas similaridades entre o sonho e aquilo a que se chama realidade. Exceto a parte de fazer amor. Isto ninguém está fazendo mesmo.

quarta-feira, 7 de abril de 2021

Ode aos amigos

 

Há quem queira criar um antagonismo
Entre o rolê aleatório
E um bom tempo tempo com bons amigos
Ambos proibidos por causa do vírus
Aleatoriamente, a gente sai da gente
E conhece gentes , se desensimesma
Se desalgoritmiza, se desespelha
Quanto aos amigos ?
Resta a sensação nostálgica, a percepção da falta, misturada ao desejo de que estivessem comigo.

sexta-feira, 19 de março de 2021

O tempo da morte

 

O tempo da morte é o melhor tempo que há

Incontáveis horas em que não é preciso contar as horas

E não é preciso pensar em tudo o que se pensa sobre a vida

Não é preciso pensar em nada

E no nada, no nada não é preciso pensar sobre

Que nada ninguém sabe sobre o nada

Mas o nada ainda é melhor que muita coisa que existe

Que muita gente que existe

E a inexistência é um meio de largar mão de tudo

Nada de contas, empregos, carreira

Nada de dor, nem de sentido e nem de falta de sentido

E o sentido só é porque existe a vida e não o nada

Por que existe a vida e não o nada ?

E a pulsão de vida só pode ser forte porque há pulsão de morte

Pulsão de morte = pulsão de sorte

Ao inanimado quiséramos voltar

A ele retornamos

Para o bem e para

O bem somente.