sábado, 7 de agosto de 2021

Desfecho

 

Um consenso havia se formado. De todas as formas de governo, aquela que mais se adequava aos novos tempos era, indubitavelmente, a plutocracia. A concentração de renda, poder e prestígio atingira níveis inimagináveis, viabilizando um ciclo de prosperidade sem precedentes para a burguesia, que agora se ofendia com esta designação que, direta ou indiretamente, remetia a algum tipo de trabalho, e achou por bem retomar os antigos títulos de nobreza : o novo mundo era comandado por barões, duques, marqueses…

A mecanização, a automatização e a inteligência artificial avançaram de tal modo a tornar prescindível a mão de obra de bilhões, que agora vagavam pelas ruas sem ter a quem oferecer o seu trabalho. Qual o Lázaro da parábola, comiam os restos, migalhas e ossos que caíam literal e metaforicamente da mesa dos ricos. Grupos paramilitares se encarregavam do extermínio dos “ indesejáveis “ e equipes médicas promoviam a esterilização dos pobres, que insistiam em existir, resistir e atrapalhar a paisagem, ocupando pontos turísticos importantes.

O ano 40 do calendário argentário coincidiu com a emergência das três grandes formas de sofrimento humano, que caíram sobre o planeta de uma forma implacável. Debaixo do forte stress decorrente da exploração desmesurada e das mudanças climáticas, a Terra, também concluindo o seu tempo de existência, se tornou o palco de inúmeras catástrofes naturais. Um vírus altamente contagioso e de uma letalidade até então desconhecida se espalhou rapidamente pelo mundo globalizado. Na tentativa de conter a pandemia, os países mais desenvolvidos lançaram seu arsenal bélico nuclear na direção de comunidades onde se imaginava que a doença havia surgido – foi um ato de vingança.

Diante do fim iminente, o qual não temiam, um grupo de músicos, filósofos, sociólogos, cientistas, atores, atrizes, psiquiatrizados, artistas de rua e outros outsiders decidiu passar os últimos meses de vida na produção e fruição da arte, fazendo amor com aquelas pessoas com quem sempre quiseram, mas foram impedidos pela moral, pelo superego, pela consciência coletiva, pelas relações de classe, pelo inconsciente coletivo, etc.

Ao som da TV, que exibia um filme do Hitchcock , ele acordou. Era um sonho – ou pesadelo; depende do ponto de vista. Ficou confuso, afinal, existiam tantas similaridades entre o sonho e aquilo a que se chama realidade. Exceto a parte de fazer amor. Isto ninguém está fazendo mesmo.

Um comentário:

  1. Excelente texto! Filosófico e que descreve a nossa atual realidade de forma lúcida e totalmente fiel às mazelas do Brasil. Queria ver textos seus, como este, no editorial de algum jornal de grande circulação! Tá de parabéns meu amigo!!!
    Ass. Carlos Zanetti.

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